Perversões

Segunda feira, sol. Ontem foi foda! Cruzamos a cidade inteira atrás de um pouco de be bop, cerveja e algumas picadas. Encontramos. Mas a situação está difícil. Os canas brotam do chão e te metem a mão na cara se te vêem vagabundeando pelas ruas à noite. Essa cidade está uma merda. Pensei em me mandar de volta para São Francisco e saber o que está rolando no Pacífico, fiquei sabendo que o Haight-Asbury agora foi tomando por um bando de hipsters doidões que estão pedindo o fim da Guerra.

Eu precisava de um café. A senhora Billie Pierce não estava em casa. Nunca vou me esquecer quando ela e o marido foram escolhidos para participar de uma foto, depois disso passaram a se comportar como estrelas de Hollywood, mas foi a uns 5 anos. O casal sempre me ajudou nas necessidades básicas, chegaram a me arranjar um emprego na linha férrea, mas eu acabei pulando em um dos trens e fui até o Texas tentar a sorte plantando maconha. É claro que não deu certo.

A casa vizinha estava vazia, e a fome começava a me incomodar. A morfina me ajudava nessas horas. Ainda tinha um pouco guardada desde a minha última visita ao médico, conseguir receitas para essas coisinhas estava cada vez mais cabeludo. Da última vez eu precisei alugar um terno para ir até a consulta. Minha cara ossuda e pálida, somada aos trapos que eu venho vestindo mostram claramente por que eu quero essa merda. Uma picada matinal. Teria que passar uma ou duas cápsulas para poder jantar.

Uma volta pelo bairro, minha nuca parecia que estava queimando, um negro tocava seu sax na escadaria de uma casa, os dedos corriam pelas teclas alucinadamente e o instrumentista pingava suor. Seu chapéu coco já tinha ido chão depois do último solo. Talvez ele estivesse procurando “aquilo”. Neal Cassady cansou de procurar alguém que conseguisse “aquilo”, esse doidão ia chegar lá.

“Vai, vai, vai, vai”, comecei a gritar como se estivesse numa Jam session. Mas o fôlego do garoto acabou e ele me pediu um cigarro. Conversamos por alguns minutos, nem ofereci o meu bagulho, esse rapaz não parecia ter dinheiro para gastar. Ele vinha do Missouri e estava na casa de sua tia esperando a época do algodão para se mandar para a Califórnia. O deixei tocando e fui atrás de vender aquelas cápsulas. Passei por um policial gordo, com um bigode grande e lustroso que me encarou e passou a me seguir por algumas quadras. Porco. Olhei as placas e vi que estava perto do hotel onde Chad estava hospedado. Ele sempre está afim de um pouco disso e ainda posso conseguir alguma erva. Nada. Foi despejado hoje cedo quando chegava em casa, deve estar dormindo em algum distrito policial.

Merda, merda! Uma torta de maçã com muito sorvete era tudo o que eu precisava agora. Sentei num banco e ascendi meu último cigarro. Uma viatura parou próxima a mim e jogou um cara porta a fora. O policial esbravejou alguns palavrões e saiu cantando os pneus de seu carro imponente. Escroto. O rapaz se levantou e para a minha surpresa, Chad, inteiro fodido, sujo, com o cabelo desgrenhado, mas livre e vivo. Fui até ele e comentei sobre as cápsulas. Ele deu o maior sorriso da história. Seus olhos brilhavam enquanto eu falava. Subimos até o seu quarto. Preparei a minha seringa, com meia cápsula e dei uma e meia para ele. Nos picamos, ele me pagou e me deu um pouco de erva. Meu dia estava completo, com essa grana eu podia comprar pão e meio litro de uísque.

Após as compras voltei para casa e comecei beber, liguei o rádio, Foxy Lady no último volume. Jimi tocava como se estivesse fazendo amor com a sua guitarra. O uísque começou a amortecer as minhas pernas. O baseado queimava e perfumava a minha sala, depois de mais alguns tragos adormeci nu.

Terça feira…

Felipe Arthur

Anúncios

Uma resposta to “Perversões”

  1. Felipe Eduardo Feijó Says:

    cafés. cerveja. ali sentado conversando. a longos tragos. suaves. intensos. conversas que vão e vem. uma mente que pensa. escreve. vive com intensidade. a propósito meu caro amigo de mesmo nome. saudades de grandes conversas construtivas. sempre idéias compartilhadas. sorrisos. com um grande carinho de irmão para irmão.

    sem mais. um grande abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: